Te Conto

Leia um trecho do livro Te Conto escrito por Jayme Teixeira | Fragmento pp.49-51

O casarão, penúltimo antes da esquina, se esparrama por vasta área da Rua Calçada. Casa de gente que saiu do povo e enricou. Como a gente do casarão ao lado: o único casarão de toda a rua ao lado do casarão.

Na esquina da Rua Popular com a Rua Calçada, só ela na região, os casarões, apreciados em ângulo mágico, exibem linhas de estilo, a mestria do riscado barroco, e ficam do lado direito da Rua Popular para quem desce a rua. Ou ainda, do outro lado de quem pega a Rua do Teatro (enladeirada em seu começo) um show visual para quem, sabendo, espicha o olho e convoca a sensibilidade: a corredeira de brisa e árvores, copas, que se derramam caminho abaixo no aclive da terra.

No lugar onde outrora se instalou o teatro, a mensagem fria do bronze: NESTE LOCAL FUNCCIONOU O THEATRO DO PAÇO, INAUGURADO A 21 DE SEPTEMBRO DE 1874, EXTINTICTO EM 18 DE NOVEMBRO DE 1937.

Rua do Teatro. Já teve o Paço do Bispo em idos e prósperos tempos; o teatro (era em frente ao paço, daí o nome) a passos de nada do Fórum e da Câmara Municipal, ambos na Rua Oficial que se abre em praça: a do Alferes, arruado irregular, chão pedregoso.

É contornando a praça, em sentido contrário ao do footing, que se adentra, pelo lado esquerdo, no corredor de palmeiras da Rua das Palmeiras, solene pela altiva sensação de ordem que emana de seu alinho simétrico e verticalidade a prumo e famosa pela casa do Ouvidor, hoje Museu da Tradição que, com toda justiça, guarda a tradição em seu devido lugar.

Paralela à das Palmeira, a Rua Ribeirinha margeia águas mansas, o que já foi o Ribeirão das Lavadeiras no tempo das roupas rendadas e das águas límpidas.

A Ribeirinha desemboca no Largo do Sino que manteve o nome mesmo depois do desabamento da capela do grande sino, e a Ordem Terceira ao trocar badaladas por verba, outro sonante metal, dispensou o sineiro e vendeu o instrumento para a antiga estação da estrada de ferro.

É pelo Largo do Sino que se desce a Ladeira do Chafariz e se surpreende o burburinho do Beco da Noite, lugar de mariposas, libélulas e toda a fauna das sombras. Sobrados mal conservados emolduram nas janelas, vinte e quatro horas, caras e seios de quem espera quem procura. Local de odores fortes, impregnado, ar embebido e morno onde os machos se enfiam, muito embora pouco se fale e pouco se veja, de modo que quase todos não são vistos e ninguém esteve.

A duas passadas dali, a Rua do Xadrez situa sua importância: a Delegacia e a Prisão Municipal, muros altos de pedra, ameiados, lembrança do tempo onde os assuntos de polícia se confundiam coa os da Guarda Nacional. Rua do Xadrez, rua sem saída, que acaba na Igreja de São Francisco, leve, sutil, magnificamente simples e despojada como o santo.

Por detrás da igreja, um azul-transcendental cemitério nas noites de lua forte abriga sisudos e decadentes mausoléus que se debruçam sobre covas rasas e fogos-fátuos: para quem conhece o lugar é caminhando pela Rua do Cemitério que se chega ao casarão de quem subiu na vida na Rua Calçada, esquina da Rua Popular.