Após a criação do mundo, Deus disse aos homens que a terra poderia ser repartida segundo as necessidades de cada um.

Naqueles longínquos tempos, foi assim que os pastores se apropriaram das colinas mais verdes; os mercadores, das mais lucrativas rotas nos continentes e nos oceanos; os agricultores, dos campos mais férteis; os monges, dos vales propícios ao cultivo da vinha; os reis, das muralhas, pontes, rios e fronteiras onde fosse possível cobrar pedágios, arrecadar impostos e impor leis.

Já o poeta, distraído, gozando da majestade profunda do azul-cósmico que ambienta as estrelas e, mergulhado na exuberância luminosa
dos poentes e nascentes que regulam as vidas dos pastores, mercadores, agricultores, monges e reis, não prestou atenção na informação divina sobre a partilha da terra, plenamente focado que estava em sua imaginação prodigiosa. E não reivindicou o seu quinhão.

Mas acabou ficando com o melhor. Ele usufruía do que os outros nem suspeitavam: em momentos inspirados, no êxtase de suas criações, ficava tão longe da terra que possuía todo o céu.

Histórias Curtíssimas, Jayme Teixeira